quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Patrick foi, Demi ficou


Semana passada morreu Patrick Swayze, o Sam, do filme Ghost (foto esquisita aí do lado). Assistindo Ghost, dei o beijo mais longo de minha vida. Foram 12 longos minutos sem descolar os lábios. Cãibras, dores na mandíbula, dormência na língua, parecia que nada nos faria parar de beijar, até que ouvimos o barulho do carro do pai dela chegando. Mas tá lá no meu Guiness Book: Mais longo beijo: 720 segundos. Estávamos assistindo Demi Moore e o falecido Patrick no vídeo K7, e eu observava o tempo do beijo de canto de olho, no contador do aparelho. Veja você a preocupação que eu tinha aos 13 anos.
O filme é de 1990 e devo ter visto em 91. Era um dia de semana, à tarde, os pais dela estavam no trabalho e ela avisou a mãe que traria uns colegas para "estudar" em casa. Fomos uns 3 casaisinhos para lá. Passar uma tarde sozinhos na casa de uma guria, era um prazer raro de ser gozado e não tínhamos tempo a perder. Todos ali sabíamos que o objetivo era beijar pra valer, se possível, quebrar recordes. Tocava Unchained Melody ..."Ohhhh!!! My looove!!!! My darlingggg!!!" E nós tome beijo!!! Aos 13, era o que tínhamos.
Nas Festinhas de Garagem, por exemplo, beijar gurias era bem mais complicado. Havia toda uma questão protocolar até chegar ao beijo. A Festa começava lá pelas 8, os guris traziam refris e as gurias os salgados, colocava-se os comes e bebes em mesas laterais para criar o ambiente. A garagem, ou melhor, o salão ficava dividido e as comidas e bebidas colocavam em um lado os guris e do outro as gurias. Expectativa, luz baixa, cheiro de Halls no ar e a 1ª música lenta da noite. O DJ preferencialmente era o dono da casa, assim os pais não encheriam o saco por haver estranhos mexendo no 3 em 1 (aparelho semelhante ao da foto).
Aperta PLAY!
Algumas lentas foram marcantes. Patience, do Guns, More Than Words, do Extreme, Wind of Change, do Scorpions, enfim, trilha sonora dos primeiros amores e decepções. A introdução com os assobios, em Patience, ditava o tempo que você tinha para levantar da cadeira dos guris, virar homem e "tirar" a guria que você queria grudar na festa. Obviamente que algumas questões já chegavam à garagem bem encaminhadas e já se sabia mais ou menos quem iria ficar com quem, e quem não iria pegar ninguém. Ainda assim não dava pra vacilar. Presenciei alguns "foras" terríveis em que os guris se deram mal apenas por demorar para tirar a guria que estava encaminhada pra ele. Naquela idade não tínhamos a clareza de quanto tempo uma mulher espera quando quer alguma coisa. Elas, obviamente, já sabiam.
Assim como no futebol, nas Festinhas de Garagem o "fator local" influenciava muito no resultado. Festas “em casa” eram aquelas em que você compartilhava a companhia dos colegas do colégio, vizinhança e parentes. Aí a tranquilidade reinava, você sabia onde estava pisando e com quem estava lidando. Era esperar a lenta e partir pro abraço.
Classifico como "fora de casa" aquelas que rolavam dentro da mesma cidade, mas em bairros distantes da sua casa e/ou organizadas pela gurizada de outro colégio. Todo cuidado era pouco pois tratava-se de terreno hostil. Cada movimento devia ser friamente calculado. Certa vez, eu e mais dois amigos da Escola Goiás fomos a uma festinha na Sede da CEEE, perto da Brigada, longe de nossas casas. Alguns salgadinhos depois, senti a confiança de quem já está ambientado a ponto de tirar uma guria para dançar. Levantei-me e fui. Começou a música e eu já iniciei o procedimento padrão para demonstrar minha intenção a ela. O processo resume-se em passar uma das mãos nas costas da guria com movimentos semicirculares no sentido horário. Sempre no sentido horário. Após umas 15 voltas, chegava o momento de levar uma das mãos rumo à nuca. Era o "algo mais", a cartada final, momento em que teria que vir alguma resposta da parceira. Se ela continuasse inerte, com as mãos congeladas às suas costas era a hora de bater em retirada. E assim foi com essa guria. Pior, havia uma legião de infelizes me "secando", daqueles tipos que não pegavam ninguém e estavam ali apenas aterrorizar a gurizada dos outros bairros, como eu e meus amigos. Era possível perceber um ódio juvenil em seus olhos e ficava claro que eles queriam espancar-nos ou, no mínimo, dar-nos um belo cagaço. Tão logo terminou a música, eu ainda retornava ao meu lugar quando notei que o cerco se fechava. Fui tomado por uma raiva extrema, o que eleveou minha naftalina. Chamei meus dois amigos para um canto, estufei o peito e disse a eles:
-Vâmo largá fincado que a coisa tá ruim pra nós!
Passamos pela porta de saída e íamos de fininho. Piscando, já caminhávamos a uns 50 metros da festa, mas qual não foi nossa surpresa ao notar 5 ou 6 trombadinhas estavam a nos perseguir. Começamos a correr ali perto da Brigada e atravessamos todo o Parque da Oktober numa velocidade que nem o Nenéu. Lá no Pórtico de Entrada saltei sobre uma tela de uns 3 metros em um só pulo. Nós três escapamos dessa com pequenos arranhões e um grande cagaço. Foi minha última festinha na Sede da CEEE.
Outro tipo de festa era a que acontecia em "campo neutro", Na praia, por exemplo. A galera de Porto Alegre era maioria, mas tinha de tudo um pouco. Ninguém era de ninguém e todo mundo podia se amar. Descobri isso da forma mais traumática. Eu pegava uma guria linda, a Ana Paula, e já tinha ficado com ela duas festas seguidas. Na terceira cheguei assobiando ao Salão, bem à vontade mesmo. Eis que me deparo com a Ana Paula aos beijos com o Eduardo, um "mui amigo" meu, que dias antes me apresentara a banda Guns n’ Roses e sua Sweet Child Of Mine em uma fita K7. O guri era gente fina, Guns acabou sendo a minha banda favorita e tal, mas não precisava grudar a minha guria, né?!
Mas na praia era assim, ninguém era de ninguém. Diante da realidade, minha decepção foi oceânica e a reação a pior possível. Decidi pelo suicídio! Não havia mais nada a ser feito na Terra e eu ia jogar-me da Ponte do Imbé e virar ração de sardinhas. Quem conhece Tramandaí lembra de um edifício comprido, na Avenida Beira Mar, o Quebra-Mar (foto). Pois foi ali que aconteceu a tal festa. Antes de partir, plantei a informação do suicídio junto a alguns avulsos que estavam na porta do Salão, depois peguei minha magrela, uma Cruiser branca, e pedalei rumo à Ponte. A notícia do guri suicida espalhou-se rapidamente e eu ainda nem tinha chegado ao meio do caminho quando os dois canalhas, Eduardo e a Ana Paula, pegaram a mobilete dele e vieram atrás de mim com mil e uma explicações e apelos para evitar a tragédia. Não adiantava, eu estava decidido e segui em frente como pedaladas firmes. Que fiascão! Desesperados, os dois retornaram ao Quebra Mar e colocaram meus pais a par dos fatos. Aí fudeu! Eu já estava quase no centro de Tramandaí quando o Seu Nelson, meu pai, emparelhou o Fusca azul QA 9697 do lado da bike e disse:
- TOCA PRA CASA GURI!!!
Bastou. Retornei e havia uma pequena multidão na portaria do prédio. Além de todos os que foram na festa, estavam seus pais, avós primos, tios, o síndico e outros curiosos ávidos por um desfecho trágico. Frustrei-os ao chegar pedalando e subir direto para o apartamento sem conceder entrevistas. Mais tarde fiquei sabendo que a aglomeração era maior, mas algumas pessoas já tinham ido me esperar na Ponte para acompanhar o suicídio.
Imagine a cara com que meus pais me esperavam no apartamento. Queriam me mandar de volta pra Santa Cruz no outro dia, mas uma bonita mobilização dos meus amigos, liderados pelos dois canalhas, os comoveu e Seu Nelson e Dona Doroti me deram uma segunda chance.
Ana Paula? E, essa jamais tivera segunda chance com o tata aqui.

5 comentários:

Unknown disse...

Tchê...não sabia desse teu lado suicida. hahahaha. E o que tem mais no "teu" guinees book, só o beijo de 12 minutos ou conseguiu outro grande recorde?

Anônimo disse...

e essa Ana Paula hein!?! hahahahaha

Marcos disse...

Hahahahaha!!!Sensacional!Muito engraçado!!Desconhecia alguns destes relatos...ou pelo menos os detalhes.KKKK!
Mas as festinhas "salgado/refri" eram bem assim mesmo...
E o Quebra-Mar? Que tempo aquele do Quebra-Mar hein!!?

Darci disse...

Acabei de ler!! Muito legal o texto Charles!!! Principalmente a parte do desejo do suicídio heheh!!! Essa nem eu sabia!!! Que mico hein!!!

Quem tem mais ou menos a nossa idade certamente vai se identificar!!

Quanto ao beijo de 12 minutos, logo pensei: como ele cronometrou?? Será que ficava olhando para o próprio relógio?? Ou será que primeiro olhou as horas e logo em seguida beijou a mina, e depois quando terminaram ele olhou de novo as horas? Mas logo veio a explicação: ficou observando o contador do vídeo K7 heheheh!! Valeu a explicação!!!

Legal também a parte do procedimento de "grudar" (essa é das antigas) uma mina na festinha. Destaque para o detalhe dos "movimentos em sentigo horário" heheheh!!!

Abração.

Anônimo disse...

boa essa história Charles...se matar na ponte hahahhaah
abraço Goga